29 de jun. de 2017

haicai viii


quem conhece as causas
de haver-nos canções de invernos
feitas só de pausas?

ex-gotas


na brincadeira de andar pra frente
descolando os penduricalhos meus
até, de mim, só eu mesmo restar
lanço verdades pelo caminho

quase nada floresce
a maioria vira nuvem
outras teimam e voltam pra mim

e adiam a ideia de eu me esgotar
e se acumulam ao meu redor
como redemoinho de mosquito depois da chuva,
como ex-gotas de mim

26 de jun. de 2017

bagaço meu


vem de dentro meu soluço
das funduras de meu poço
onde habita num cortiço
a porção do meu avesso:
eu em suma e meu palhaço

zelação


suspirava o homem-só
pelo amor daquela flor;
mendigava às alegres retinas
pelo olhar da mulher-girassol

descabida insensatez,
fez da flor seu capataz
e mentia não mais viver só
e nos sonhos fingiu-se homem-sol

11 de jun. de 2017

haicai vii


meu mar se conecta
ao rio que em flores sorriu
nascentes com néctar

24 de mai. de 2017

nau


a esperança me atiçou
com um cais inalcançável,
um porto chamado Tempo

e me deu uns pés de vento
e um destino: navegar
meu barco chamado Now

6 de mai. de 2017

a toca


não contente
em ser somente
aparente casca,
rompeu-se do restrito trilho
e se espalhou pipoca
bem maior que o próprio milho

25 de mar. de 2017

suspensa


seus caminhos paralelos,
suas vias marginais.
poucos são os verdes dos sinais,
colhem só vermelhos e amarelos.

desespero e esperança
se confundem, se compensam.
desacato é maldição ou bênção,
se sonhar vai onde não se alcança?

por isso passam por cima
de qualquer indiferença.
valem-se de toda pouca estima
da vida que já nasceu suspensa.

19 de mar. de 2017

amargem


posicionei-me ao ponto cego
e assumi discretamente o meu lugar
motivado por tua coisa de ignorar
as fracas almas dos sem-ego

não sou narciso nem vampiro
não combino nem com o oito nem oitenta
mas no espelho de águas turvas eu me inspiro
com ilusões que o olhar me inventa

atravessei o mar
rumei à outra margem
tinturei-me com cores do ar
desbotou-se o que era minha imagem