7 de ago. de 2018

cores vivas


o mundo a desbotar-se os anseios
enquanto que do outro lado da ponte
parte de sua gente insistente
demão atrás de demão
sangra por teimar sustentar
suas ralas cores vivas

6 de ago. de 2018

incerto


a casa choveu-se inteira
e só veio a estiar quando
eu pude notar-me exilado
sob o teto nebuloso
de um céu

5 de ago. de 2018

pá errante


optei enfim
por uma pá errada.
não me levou a fundezas
de baixo de mim,
levou-me aos profundos da frente.
escavando as marés e os mares,
a pá errada em minha mão
era um remo.
e das fundezas à frente
até hoje não achei os fins.

3 de ago. de 2018

da transmutação do barro


manoel
--em apenas dois minutos--
consegue me abduzir das pequenices
estético-sociais desta nossa
bola-de-gude-mundo
e me hipertransmutar inteiro

para a plasticidade azul
que dá forma à água,
ao gigantismo subatômico
das formigas
e às profundezas cratéricas
das tangerinas.

parte da magia é dele,
parte da natureza invisível do mundo,
mas parte também se deve
à matéria com a qual fui criado:
de poeiras, de salivas e
de barros.

vacilações singulares


pernas
pra que te quero

ou

pernas
para-te quieta?

o chão sim


penas e folhas
não escolhem de que lado cair.
o chão sim.

já faz tempo
que o chão caiu
em si.

ilógica monológica


duas vozes
duas bocas falando
simultâneas, sem pausas

forçaram meu olhar, calado
e sem intervir, a interver
só pra certificar-se que
vozes ainda se falam
sem se conversarem

2 de ago. de 2018


mundo louco
pois cheio de
gente certa

mundo pouco
pois cheio

samsara


teve que despetalar-se
para saber-se flor total.
e foi preciso dar fim às palavras
para ver-se obra poética completa.

desnudando-se de si,
pôde ver revelada
toda a corpulência
de sua alma.

portanto, não é de deserto
o futuro de seu rio.
veja que seu destino
está em nuvens

ou em olhos que guardam
sementes de mar.