9 de jan. de 2020


aves e naves
e um desagravo
contra o que é grave

8 de jan. de 2020


isto que você vê
é só isto que você vê
se nada mais houver
de fato para ser visto

e como saber se há?
não basta o olho abrir
o olhar requer abrigo

7 de jan. de 2020

crito


aquilo não era um falar

gritava
paria palavra
com dores de quem escreve

carne se fazendo verbo
um grito da própria verve
que a nenhum ouvido serve
mas faz a alma singrar
desertos de pele

5 de jan. de 2020


água passada não volta,
veloz é a corrente.
quem quer que algo volte,
passe
                                 na frente.

4 de jan. de 2020


ressignificar como exercício
e tornar a perguntar-me
o que significam os teus signos.

toda a matéria que já fez ou que fará
tudo que é paz e tudo que é guerra
divide a mesma cela nesta terra

3 de jan. de 2020

2 de jan. de 2020


tão dissimuladas
as palavras que a boca
fez que não disse

e tão evidentes
as que de fato não disse,
mas no fim dissidentes.

desejos de linguagem


da língua,
o lugar predileto
é o dialeto.

tateia, vagueia, passeia,
põe sangue quente na veia
e ao corpo que lhe toma
         —o idioma—
inunda e incendeia.

dessa viva paragem
faz sua roça
e o que lhe coça, longe dela,
são desejos de linguagem.

1 de jan. de 2020


cada passo
é um caminho
que eu traço

cada caminho
por mais solitário
e por mais que pareça o contrário
nunca é sozinho