recortes de fotos digitais
remetem a lembranças reais...
a garganta se espreme,
dificultando os goles
e os suspiros surgem
talvez como leve consolo para o peito apertado
nenhuma primavera será mais
como a dos antigos setembros...
uma nova cor se revela pela luz,
uma nova flor que antecipa dezembro
18 de set. de 2006
2 de fev. de 2006
O Pequeníssimo Conto da "Sinistra Mão Tiranosuicida"
Fora, excepcionalmente, a primeira a mostrar-se acordada à pouca luz do mais novo tedioso dia que estava chegando. Começou seu serviço serviçal coçando uma lúpia avermelhada que um pernilongo deixou na perna direita calombenta durante aquela madrugada e que, agora, fazia-se sentir mais ardentemente. Como que tomando consciência do fato de ter sido a primeira a acordar, concluiu que a destra só poderia estar dormente e inerte ante o sono ou o peso do resto do corpo sobre aquele respectivo braço. Foi assim que vislumbrou a grande chance de inaugurar e cerrar de uma vez a sua própria liberdade; de sentir-se útil e potente diante da tirania, agora mórbida, da massa encefálica e de sua fiel súdita - a destra -, mesmo que num ato derradeiro e de fenecimento próprio. (Também não queria mais fazer o papel de aia da aia e acordar, com muito esforço, a destra, retirando-lhe debaixo de todo aquele peso)
Tomou-se, então, de um ímpeto próprio dos que são jacobinos e, assim, mesmo sem a destreza de seu simétrico rival (sempre preferido e treinado pelo tirano encarcerado em castelos cranianos), apoderou-se do velho punhal enferrujado que sempre era obrigado a carregar, mas nunca a dirigir. Agora poderia mostrar, não sua habilidade, pois não a tinha, mas todo o seu furor desgovernado sobre tais escravizadores. Acabaria de forma fulminante aquela tirania se atacasse um duto sangüíneo; ou de maneira lenta e cruenta caso apenas fendesse a carne com o tétano daquela imundícia. Sua ira fazia seu sangue ferver e esta quentura, ao mesmo tempo que lhe dava força, como o vapor quente à locomotiva, fazia-se dissipar pelo braço e logo haveria de chegar à base de controle do grande presídio; teria que agir rapidamente, talvez de súbito. Mas como, se nunca foi chamado a ser o protagonista das histórias (e, sim, o figurante sempre)? A quentura parecia ter chegado aos cortinados das ventanas que levam a luz ao grande tirano, pois que seus faróis pareciam já mover-se e os panos ensaiavam levantar-se. Os olhos não em muito tempo se abririam e entregariam a sinistra traidora ao tirano rei, enquanto que aquela espremia o punhal com toda a força que conseguia burlar do grande controlador desacordado.
Como se já esperasse, a sinistra pareceu ter consentido deixar os faróis lhe dedurarem ao tirano plúmbeo, que invocou de imediato sua escudeira fiel, escrava conformada e condecorada com todo o trabalho. Foi assim que a destra se viu impotente pois que ainda demente com a falta do sangue prensado pelo corpo. O sangue cálido que borbulhava o pulso da sinistra já havia chegado também na bomba que então batia em ritmos mais apressados para que logo fosse cuspido ao resto dos vassalos como sinal de alarme. A sinistra já se sentia impotente e atemorizada nem tanto pela quantidade de vassalos que estavam prestes a investir contra ela, mas que pelo sangue que acordara de vez a massa tirana e suscitara a incapacidade e pretermissão que sempre foi o seu grande estigma.
Já não tinha mais razão visto que a própria razão despertara, recompondo sua "dura lex". Nada mais a fazer senão largar o punhal velho e enferrujado e cuidar de acordar a destra (preferida do rei) ainda adormecida e atordoada, coçar mais algumas vezes o calombo ardido e servir em seus serviços serviçais a mais um fatídico dia que prometia para si tédio e desprezo. E, assim, continuava a ser a aia da aia do rei.
17 de jan. de 2006
pobre mocidade
de onde vem a inspiração dos antigos,
dos sambistas, trovadores do amor
que mastiga de tristeza os abrigos
moribundos, maculados de dor?
vem, quem sabe, do intragável sabor
de não ter ou perder os descompassos
que liberta, do cortante rubor,
o desejo de entregar-se aos abraços.
ou, talvez, do maior desembaraço
de viver tal como viveu Orfeu.
mas onde anda a inspiração, neste espaço
que, baldado, tudo já feneceu?
foi-se embora de onde o samba nasceu,
ou calou-se nos porões da saudade?
não! expulsa por essa mocidade,
despejada do glorioso apogeu...
dos sambistas, trovadores do amor
que mastiga de tristeza os abrigos
moribundos, maculados de dor?
vem, quem sabe, do intragável sabor
de não ter ou perder os descompassos
que liberta, do cortante rubor,
o desejo de entregar-se aos abraços.
ou, talvez, do maior desembaraço
de viver tal como viveu Orfeu.
mas onde anda a inspiração, neste espaço
que, baldado, tudo já feneceu?
foi-se embora de onde o samba nasceu,
ou calou-se nos porões da saudade?
não! expulsa por essa mocidade,
despejada do glorioso apogeu...
12 de jan. de 2006
Prefácio
Este blog tem como intenção principal elencar os pensamentos, idéias, versos, contos, entre outras coisas escritas, de um cidadão comum que trilha a vida e, nos seus intervalos, cantarola e reflete a própria vida que já trilhou. Aqui, então, interlúdios da obra do palco da minha vida.
7 de jan. de 2006
interlúdios meus
entre uns e outros passos
minha vida pende num só pé
trilhando pontos esparsos
sem contar com a marcha ré
qual equilibrista
em cujos interlúdios vai
firme como maquinista
certo que a certeza trai.
são nos intervalos
que parte da mente sossega
e a outra, como em cavalos,
à cantoria se entrega.
minha vida pende num só pé
trilhando pontos esparsos
sem contar com a marcha ré
qual equilibrista
em cujos interlúdios vai
firme como maquinista
certo que a certeza trai.
são nos intervalos
que parte da mente sossega
e a outra, como em cavalos,
à cantoria se entrega.
interlúdio
[Adapt. do ingl. interlude - lat. med. interludium.]
S. m.
1. Mús. Trecho de música instrumental que se intercala entre as várias partes de uma longa composição, do tipo ópera, missa, cantata, etc.; intermédio.
2. Teatr. V. entreato (2).
S. m.
1. Mús. Trecho de música instrumental que se intercala entre as várias partes de uma longa composição, do tipo ópera, missa, cantata, etc.; intermédio.
2. Teatr. V. entreato (2).
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