9 de ago. de 2018

casa cheia


desabitado estou eu
e assim estando
o que me frequenta
é aquilo que me sitia.

minha cidade
frequentemente
me visita.

7 de ago. de 2018

cores vivas


o mundo a desbotar-se os anseios
enquanto que do outro lado da ponte
parte de sua gente insistente
demão atrás de demão
sangra por teimar sustentar
suas ralas cores vivas

6 de ago. de 2018

incerto


a casa choveu-se inteira
e só veio a estiar quando
eu pude notar-me exilado
sob o teto nebuloso
de um céu

5 de ago. de 2018

pá errante


optei enfim
por uma pá errada.
não me levou a fundezas
de baixo de mim,
levou-me aos profundos da frente.
escavando as marés e os mares,
a pá errada em minha mão
era um remo.
e das fundezas à frente
até hoje não achei os fins.

3 de ago. de 2018

da transmutação do barro


manoel
--em apenas dois minutos--
consegue me abduzir das pequenices
estético-sociais desta nossa
bola-de-gude-mundo
e me hipertransmutar inteiro

para a plasticidade azul
que dá forma à água,
ao gigantismo subatômico
das formigas
e às profundezas cratéricas
das tangerinas.

parte da magia é dele,
parte da natureza invisível do mundo,
mas parte também se deve
à matéria com a qual fui criado:
de poeiras, de salivas e
de barros.

vacilações singulares


pernas
pra que te quero

ou

pernas
para-te quieta?

o chão sim


penas e folhas
não escolhem de que lado cair.
o chão sim.

já faz tempo
que o chão caiu
em si.

ilógica monológica


duas vozes
duas bocas falando
simultâneas, sem pausas

forçaram meu olhar, calado
e sem intervir, a interver
só pra certificar-se que
vozes ainda se falam
sem se conversarem