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5 de dez. de 2019

rua


da canoa,
desinventei o que era rua
pra chão nunca mais eu pisar.

agora só encontro recosto
na beira terceira do leito,
de onde te chamo a voar
um voo sem voo,

na dança das cheias
e veias vazantes,
um teu jeito de estar-me a tocar.

28 de nov. de 2019

céu fecundo


quis um céu
em pleno cio
voar dentro dos olhos
de um desalado
que nem eu.

e não sei se era noite,
não sei se era nuvem.
céu fecundo, eu só sei,
pelo outro céu que me nasceu.

27 de nov. de 2019


parti por um rio
que já estava de partida.
só rios que não partem
—todos sabem—
é que chegam.
e por termos decidido não ficar,
ficamos:
eu aqui sem lar e o rio
um pouco ainda mais distante
do seu mar.

25 de nov. de 2019

recurso


com as vozes do passado
não quero um diálogo.
viagem do tempo só existe pra luz.

o que às vezes ocorre
é coisa diversa:
uns braços de rio
a darem-se as mãos.

13 de nov. de 2019


não ouso dizer minha mão
possuiu um pássaro.
possuiu no máximo
um pouso.

12 de nov. de 2019

graça do vento


tão demorada a queda
que o abismo se fez morada
e aquele que cai
já nem lembra que cai.

vai leve levando seus dias
como se de vento fosse a estrada
como se de dança fosse o vento
como se de canção o silêncio.

e assim vai tão leve
que o que nos parece breve
pela graça do vento
vai se tornando em doce e lento.

8 de nov. de 2019

prelúdio


desde a eclosão
até o último pouso
um allegro

ora cedendo
a tensões diminutas
ora crescendo.

breve

porém belo
como o prelúdio de bach
da suíte pra cello.

é o tempo é o tempo
a quem é de voar.

28 de fev. de 2018

consortes


se neste chão
os passos parecem
ser sempre em falso
vamos falar então
de pássaros

e muita sorte
pra quem a vida
asar