10 de fev. de 2018

linguagir


de teus pontos geográficos
minha língua mapeia
teus sotaques e dialetos
teus espasmos onomatopeicos
e a proparoxítona sílaba
em que todo clima culmina

9 de fev. de 2018

só minha


peguei emprestada
qualquer avenida
por onde passassem
os blocos da vida
sempre em construção

na ponga de frevos
de trotes, de axés
refresco e me fervo
fingindo ter tudo
mas sem nada ter

de mim vestida e só minha
--e, olha, nem fui eu que quis--
nasci numa fantasia
de um dia, de qualquer dia
te achar pra então ser feliz

8 de fev. de 2018

cadentes


imóvel
estatelado
costas coladas
no ventre da terra

temendo que o mundo
desmoronasse inteiro
sobre si e sobre o céu
onde pousou pés, mãos
e coração

7 de fev. de 2018

contragosto


o que vejo [desolado]
não consigo desolhar
o que escuto [nem discuto!]
já não dá pra desouvir

entretanto
não é tudo que eu engulo:
fecho a boca, eu até cuspo
e se desce goela abaixo
dedo em riste
mando sair

6 de fev. de 2018

claramente


os abismos falam

mesmo quando
às chances de pontes
eles se calam

ainda assim
abismos
sempre falam

5 de fev. de 2018

imperfeito


rumávamos ao alto e de lá
voraz e suavemente
eu te empurrava
vezes e vezes

e a cada empurrão
--olhos fechados--
voavam tuas asas
e voava minha alma

a altura é relativa
as asas são relativas
até o empurrão é relativo
só nosso voo era absoluto

4 de fev. de 2018

embora


estranho um tanto
quando levam a sério
o que escrevo nestas areias

nem mesmo o mar leva

o que escrevo
o mar inclusive
é quem leva

realidade


fui me meter em terras
que imaginei abstratas
acabei preso inteiro:
tudo tudo é concreto

3 de fev. de 2018

en passant


se o homem planejar espalhar
plantações em solo lunar
sugiro que plante apenas flores
daquelas que falam pelo cheiro

desses dias escuros
quase não se viu brotar poesia
mas flores e cheiros, dizem, podem fazer
brotar e chamar luz para os dias

e mesmo que isso não aconteça
mergulhados ao fundo
de noites silenciosas de luz
os cegos poderão ainda assim
ouvir seu cheiro passar

2 de fev. de 2018

em vão


abriu-se um largo vão
no lugar onde os sentidos se abrigavam
durante temporais e chuviscos
de horas não marcadas

do vão do desabrigo
os sentidos já não se vão
porque qualquer hora que seja
também não aparecem mais

ao menos agora
dor parece ter deixado de existir
a não ser a invisível dor de nada sentir

a máquina dos sentidos
nem mesmo ela
ali se abriga mais