11 de mai. de 2018

do desplante ao replantio


e ainda
o desplante
de dar flor em pleno outono
(quando quase não há pássaros
que abriguem elogios ao fim da tarde)

depois
daquele broto
não vingado no verão.

e o desplante
de querer andar pra onde apontam
os dedos lacerados por topadas
do caminho.

o desplante
de querer
ainda.

9 de mai. de 2018

correição


a ternura relampiou no céu,
que é preciso estar acordado
pra que ela chegue de novo
e é preciso que chova
pra que ela volte a ficar

vem vindo que é tempo dela
e eu terei que fazer bem menos,
que menos talvez seja mesmo mais

que com passos largos
o caminho logo acaba

e o bom fim mesmo
parece que depende
somente do caminho

8 de mai. de 2018

grão


os suores
daquelas altas temperaturas
que molhavam a fina areia
e congelava
o tempo na ampulheta

sumiram
no frio de agora.
banida a função dos poros,
já nenhum outro marejamento
consegue fazer o tempo
deixar de correr.

7 de mai. de 2018

devolução


deus o fez cair
em sono como o de adão

ao acordar
viu-se aprisionado
em muitas costelas
todas suas

5 de mai. de 2018

exilada/2


se eu não tivesse trazido comigo
a pedra do esquecimento,
se tivesse obedecido
àquilo que era próprio fazer,
nada estaria agora habitando
o pátio das minhas lembranças
e eu seria como um neonato
à espera de uma nova infância.

seria o maior dos furtos:
furtar o tempo.
mas a mim só resta
reinventar outros jeitos
de fazer esta alma exilada
nascer de novo.

4 de mai. de 2018

seca


gosto da forma
que o teu olhar me toca
que chega me deforma

e também do jeito
com que ele me bole
bebendo-me em piscadelas
gole depois de gole

3 de mai. de 2018

páreo


não faço ideia
de como eu vim parar
aqui depois de tanto andar

não faço ideia
de como eu vim a parar

ficções


triste o fracasso
de tentar ingressar
no rol dos fingidores.
depois de fingir amar,
de fingir estar feliz,
de fingir ser triste,
de fingir sua dor,
doeu-lhe fingir.

a ilusão quebrou-lhe a cara,
mas um nariz foi seu salvador.
aquele mesmo que o expôs,
protegeu-lhe e deu-lhe o aval
de brincar sem se ferir.

e brincando de amar,
brincando de estar feliz,
brincando de ser triste,
brincando sua dor,
foi tão convicto quanto
a criança que brinca
de ser astronauta
só pra tocar o céu
sem ter que despencar.

e foi tão poético quanto
o fingidor que sempre despenca
em sua mesma dor.

2 de mai. de 2018

ati


o povo pesqueiro
não conta com o peixe,
conta com a cana
pra dar conta
da gana
e da cama.

mas onde
têm dormido
as gaivotas?

1 de mai. de 2018

seus


como não notei em sua chegada
o hálito dos tragos que,
tão recentes,
me antecederam?

comigo, iludido, o seu último gole
tragado já dizia por si:
não havia mais nada a dizer

partiu, dizia, rumo ao seu lar
--e eu acreditei que sim--
mas parecia já não saber
como lá chegar

mais adiante,
outras chances
outros copos
outros corpos

o destino final seria, sim,
a sua longínqua casa
nem que fosse apenas para partir
--seu destino sempre foi partir--

porque ainda soa bem
quando publicam:
"morreu rodeada
por aqueles que amava"