6 de dez. de 2007

maracatu contente



se eu tivesse a mesma força
desse baque revirado
que faz rir e faz bailar
tua estrela rebrilhante,

minhas mãos seriam palco
para tuas sapatilhas
e o meu coração alfaia
batucando tua alegria


eu, porém, pobre baiano
mais treinado em outras gingas,
só consigo (estatelado)
degustar a minha pinga

que é pra me esquentar o peito,
despertar de um quase sonho
e guardar na mente torta
teu maracatu risonho

5 de dez. de 2007

desistentes

Haidee Lima (http://www.flickr.com/people/haidee/)


piso nesta terra
e, em cada falso passo, sinto
o sucinto cadafalso
que deseja me engolir

piso neste chão
-- concreto piso da ilusão --,
onde os pés já não encontram
as raízes dessa gente

relíquias entulhadas das raças,
riquezas ruídas do povo

preparem um golpe de novo
que instigue a nação a cantar

terra de tantas ditaduras,
dite uma nova forma de rimar,
de cantar, sacudir, remexer
(ou votar)

dite de novo o bê-a-bá,
porque a gente vacilou e se perdeu
na tristeza de se ver desmoronar,
na tristeza de perder e desistir

23 de nov. de 2007

cemitério de lágrimas



chuva,
vem lavar-me
os olhos molhados
(de sangue)
e escorrer de mim
um rio vermelho

criar correnteza,
moldando vales e trilhas;
manchando a terra
por onde vais

corra,
murche palavras,
seque sementes,
se despedaçando
e, enfim,

sepulte a tristeza
num mar
que morto
já está

22 de nov. de 2007

andorinhando



todo devoto,
visto-me e volto,
cantando baixinho
ao som dessa aurora,
ao príncipe raio de sol.

mãos calejadas
e asas malhadas
de tanto voar --
vivendo estações,
guiado por outras canções...

volto esmolando
por um verão.
assim, no gerúndio,
vou andorinhando
um ninho pro novo interlúdio.

9 de abr. de 2007

teu olhar


me diz, sem pudor
no silêncio do olhar,
palavras que a boca
temeria falar

esse artifício eu já sei:
vontade de me comprar,
como se algo valesse
o teu olhar, teu olhar

como se quisesse roubar
minha firmeza de mim,
passando revista ao meu corpo,
citando-me em teu folhetim

quando meus olhos, porém,
resolvem te conferir,
dispara infantil e fugaz
o teu olhar, teu olhar

3 de abr. de 2007

vindita bacana



nas vivendas do umbuzeiro miúdo,
onde a luz é repelida e ocultada,
uma bruxa, um cão e o súdito mudo
vestem branco pra mais nova empreitada

ela ensaia o mais recente projeto:
chicotar mais um dos alvos mortais
com sua vara envenenada em dejeto,
resultado de sua fome voraz

testa a língua laminada em seu servo
-- incapaz de reagir com um 'não' --
e prossegue planejando em qual nervo
vai mirar e disparar seu arpão

ia assim, dissimulada de bem,
solfejando uma divina canção
com a língua que servia também
de tridente emporcalhado do cão

só que, nessa, se deu mal a maldita,
porque a vítima era amada de Deus;
logo, teve que aceitar a vindita
de engolir seus tribunais fariseus

(a imagem é do mestre Osvaldo)

28 de mar. de 2007

mais uma, com amor



tantas canções, eu sei...
e cá, mais um
contando as nuvens
pra te ver
e te cantar;

louco para deslizar
nas tuas curvas bruscas
e se deliciar com teu olor –
um cheiro que me cheira a mar.

amar... verbo intransigente
quando penso
e quando ouço tua voz,
o teu jeito lindo de falar.

e vou mesmo repetindo,
teimando em afirmar
tudo ou quase tudo
que outros amantes bobos
disseram em teu louvor:
não há quem seja mais bonita
que tu, minha linda Salvador.

12 de mar. de 2007

haicai iv



de tão esquentada,
Mãe Terra declara guerra
e gira embriagada


(imagem elaborada por Débora Café)

5 de mar. de 2007

amor e festa



luas e mares,
anjos,
mensagens de amor

em nossa festa,
fui teu ladrão-pierrot;
em nossa vida,
tu que roubaste
pra ti
o meu coração
(e eu deixei)

então,
não medi
nem mais fugi;
me escalei,
me intrometi
nos teus sonhos
(bons)

e ao teu lado
só consigo ser
um palhaço em
teu batom



(dedicado a uma linda menina com gosto de café)

3 de mar. de 2007

conveniências

nas festas da falsidade,
o veneno vem em bandejas
e os punhais em lenços servidos

os burros vaidosos
(que confundem vanguarda com vanglória)
pedem-me um discurso,
ao que, ainda imune
aos venenos,
prontamente respondo
sem receber aplausos:

"minhas palavras,
sempre mal ouvidas,
nunca podem ser bem faladas
por serem tão malditas"

eu é que não sou besta:
em terra de cego,
quem tem um só olho
acha a saída
e se pica!