17 de ago. de 2008

dois sertões


dois sertões, um só destino
borbulhando pelos chãos
rasga o sol nas contramãos
o futuro de um menino

inocência ou desatino
não! malícia não é, não!
quem viveu na escuridão
cega ao brilho matutino

dois sertões, um desafio
e a promessa de vingar
o que o sol teima em queimar
horizonte por um fio

siga em frente rente à via
dos que alcançam o amanhã
e arremede a nota vã
que essa vida te assovia

dois sertões, um coração
e o desejo de voar
de ter que se aventurar
por amor ou por paixão

2 de ago. de 2008

cara espantalha


foi quando eu cansei de tentar atrair
pus o meu ponto final em destaque
desmanchei meu ataque
forcei-me a sair

foi logo ao virar espantalho de olhares
vendas nos olhos, cortinas fechadas
me despi das fachadas
calei meus cantares

me veio uma chuva que eu não esperava
feita das garras de gata selvagem
me roçando a coragem
que em falta já estava

de mim que restavam só palha e farrapos
príncipe tolo de um reino bufão
transbordou solidão
no vale dos sapos

26 de jul. de 2008

febre norturna


cenários pintados no vento
bares, boêmios, paixões
sonhos que servem de alento
cantiga em violões

os medos convertem-se em risos
frouxos, que explodem pro céu
pés desprendidos dos pisos
um são e um pinel

desertas prosseguem as ruas
densos, os rios da ilusão
brasas da tez seminua
ardentes ou não

não seja uma esquizofrenia
pinga mineira ou a morte
vista na breve alegria
que chegue e se aporte

22 de jul. de 2008

sob encomenda


diz com que cara você quer que eu saia...
que personagem vai querer que eu seja:
um belo amante que te ama e deseja
ou um qualquer que não é de sua laia?

o papo muda a depender do gosto,
troco o tempero de acordo co'o trato,
não obstante estar no meu contrato
"por trás do pano, sempre o mesmo rosto"

sob encomenda, serei todo seu
até o minuto predeterminado,
quando desfeitas todas as suas máscaras

e revelado o teu oculto 'eu'
(assim recuo meu pobre ser quadrado
me confiando nos sinais de Bháskara)

4 de jul. de 2008

a adriça e o estandarte


arco-íris de três cores,
foi um céu que riu pra mim
com candura e paz de querubim,
adocicando os meus mil dissabores

me encharque em tua alegria
e me ofusque em luz solar;
mire em mim co'os olhos de angorá,
dê-me alcançar tua nobre estrela guia

sendo tu, porém, bandeira
a bailar no campo das princesas
leve e distinta sobre qualquer eira

eu não temo em te furtar:
trago-te meu ouro e minhas riquezas,
e o peito em fogo pra te flamejar

9 de mar. de 2008

faca e foice


eu quero ter a faca
que corta a língua dos que julgam
furar os superegos
y alto decir: ¡vida no es juego!

rasgar a animalia
dos que -- moldados pra ser gente --
consentem co'a agonia
e vão nas vias das serpentes

e eu sonho usar u'a foice
tão amolada quanto as línguas
e entrar na mesma lista
dos que, o rumor, deceparei

enfim, nós (mutilados)
regressaremos ao começo:
no reino do silêncio;
porto em que o caos fez-se endereço

5 de mar. de 2008

recreios juninos


enfim chegou aquele dia
enfim chegou a minha vez
bigode a lápis fez cosquinha
nossa camisa era xadrez

chapéu de palha me espetava
e aquela calça incomodando
gravata doida que apertava:
caixa de fósforo e um pano

mas melhorou quando lhe vi
-- com várias pintas e duas tranças --
compartilhando a mesma espiga
e me sorrindo em nossa dança

23 de fev. de 2008

pelos buracos

imagem de Richard Alexander Caraballo ( http://www.flickr.com/photos/minusbaby )


espiava pelos panos
pelo orifício dos trincos
de onde se via um mundo louco
parque da mente em que reino e brinco

tropecei em belo tombo
fui para dentro da cena
daquela cena fiz quilombo
palco dos sonhos de almas obscenas

por acaso ali entrei
passos em falso arrisquei
e fui ouvindo loas surdas
prata que paga audácia absurda

e uma chave enfim trancou-me
dentro da cena forjada
com minha pele escancarada
para os buracos das fechaduras

15 de fev. de 2008

que é de iracema?

imagem de Leonardo Jiménez Quijano: http://www.flickr.com/photos/crleonardo/

será, iracema, tua sina o pesar?
pois que, de novo, te vi ao relento,
entregue às ondas e aos tapas do vento...
foste largada por teu ceará?

parece que o segredo da jurema
-- traído pelos corpos em afã --
'sconjurou pra essas terras de tupã
o maldito torpor tepacuema

e trouxe à tona a sombra em falso amor
de pobres raparigas que, ancoradas,
esmolam, com seus corpos, um declínio

uma forma de sentirem-se amadas,
uma escolha que dilui teu fascínio
e faz toda tua sina ser de dor

12 de fev. de 2008

teus sertões

imagem adaptada de Angela Meurer: http://www.flickr.com/photos/anginhamm

se vi o que vi,
por que não vieram?
se assim prometeram,
por que não voltaram?

pois, por onde fui,
sinal tava verde,
as vacas mais gordas
e as águas gentis

cá perto aninhava
serena a asa branca,
lá longe cantava
feliz o assum preto

mas, triste, Rosinha
seguia a esperar
aqueles que um dia
cantaram regresso

e a seca, que outrora
fendia esse chão,
achou nova terra
num coração só