9 de mar. de 2008

faca e foice


eu quero ter a faca
que corta a língua dos que julgam
furar os superegos
y alto decir: ¡vida no es juego!

rasgar a animalia
dos que -- moldados pra ser gente --
consentem co'a agonia
e vão nas vias das serpentes

e eu sonho usar u'a foice
tão amolada quanto as línguas
e entrar na mesma lista
dos que, o rumor, deceparei

enfim, nós (mutilados)
regressaremos ao começo:
no reino do silêncio;
porto em que o caos fez-se endereço

5 de mar. de 2008

recreios juninos


enfim chegou aquele dia
enfim chegou a minha vez
bigode a lápis fez cosquinha
nossa camisa era xadrez

chapéu de palha me espetava
e aquela calça incomodando
gravata doida que apertava:
caixa de fósforo e um pano

mas melhorou quando lhe vi
-- com várias pintas e duas tranças --
compartilhando a mesma espiga
e me sorrindo em nossa dança

23 de fev. de 2008

pelos buracos

imagem de Richard Alexander Caraballo ( http://www.flickr.com/photos/minusbaby )


espiava pelos panos
pelo orifício dos trincos
de onde se via um mundo louco
parque da mente em que reino e brinco

tropecei em belo tombo
fui para dentro da cena
daquela cena fiz quilombo
palco dos sonhos de almas obscenas

por acaso ali entrei
passos em falso arrisquei
e fui ouvindo loas surdas
prata que paga audácia absurda

e uma chave enfim trancou-me
dentro da cena forjada
com minha pele escancarada
para os buracos das fechaduras

15 de fev. de 2008

que é de iracema?

imagem de Leonardo Jiménez Quijano: http://www.flickr.com/photos/crleonardo/

será, iracema, tua sina o pesar?
pois que, de novo, te vi ao relento,
entregue às ondas e aos tapas do vento...
foste largada por teu ceará?

parece que o segredo da jurema
-- traído pelos corpos em afã --
'sconjurou pra essas terras de tupã
o maldito torpor tepacuema

e trouxe à tona a sombra em falso amor
de pobres raparigas que, ancoradas,
esmolam, com seus corpos, um declínio

uma forma de sentirem-se amadas,
uma escolha que dilui teu fascínio
e faz toda tua sina ser de dor

12 de fev. de 2008

teus sertões

imagem adaptada de Angela Meurer: http://www.flickr.com/photos/anginhamm

se vi o que vi,
por que não vieram?
se assim prometeram,
por que não voltaram?

pois, por onde fui,
sinal tava verde,
as vacas mais gordas
e as águas gentis

cá perto aninhava
serena a asa branca,
lá longe cantava
feliz o assum preto

mas, triste, Rosinha
seguia a esperar
aqueles que um dia
cantaram regresso

e a seca, que outrora
fendia esse chão,
achou nova terra
num coração só

15 de jan. de 2008

haicai vi


banana de louco
que voa, deixando à toa:
é tucano-toco

13 de jan. de 2008

moça de lá

Adaptado de Cezar Martins (http://www.flickr.com/photos/czrmartins)

dançava eu
vestida em mi'a saia rodada,
mas se saia
não era pra tu que eu dançava

dançava sorrindo
sim, dançava...
mas meu riso era parte
dos passos que eu dava

olhava pra tu
(não, não nego)
é tanto que, de tanto olhar,
gravei-me em teus sonhos

mas, nêgo bondoso que veio do nada,
não vê que é besteira querer tanto assim?
o riso e a dança são pra batucada
e o meu coração já é do Arlequim

11 de jan. de 2008

coração furado

André Taveira (http://www.flickr.com/photos/andretaveira/)

ai! coração morno...
que não sabe se fervilha
ou se termina frio duma vez

em plenos dias em que o sol se demora em fugir
e o vento arde quente em maresia

dias em que se vê a cidade se agitando
e o barulho mais e mais aumentando;
dias em que novas caras brotam
e as cores começam a variar
(revelando velhas raças)

o negócio é cá dentro...
aquela malemolência
aquele marasmo
aquele inverno

campo vasto sem um pé de vento
não ouve-se o eco nem do pensamento

êta, coração enferrujado...
tá feito panela furada
que não sabe o que é ferver?

16 de dez. de 2007

eu e o tempo



aguarde
e guarde-me em qualquer lugar
em menos de uma hora chegarei aí
e o que restou de mim se reconstituirá
na noite sem ventos
descanso do pranto

pedaços
migalhas que esqueci de mim
lançadas (e perdidas) pelos quatro cantos
colhidas pelas aves que choviam fados
em tempos de nuvens
e seca de alento

se é tarde
conceda-me lavar as mãos
e deixe eu retratar o seu semblante antigo
ainda que coberto por uma erosão
que ao tempo se deve
e que eu consenti