2 de fev de 2006

O Pequeníssimo Conto da "Sinistra Mão Tiranosuicida"



Fora, excepcionalmente, a primeira a mostrar-se acordada à pouca luz do mais novo tedioso dia que estava chegando. Começou seu serviço serviçal coçando uma lúpia avermelhada que um pernilongo deixou na perna direita calombenta durante aquela madrugada e que, agora, fazia-se sentir mais ardentemente. Como que tomando consciência do fato de ter sido a primeira a acordar, concluiu que a destra só poderia estar dormente e inerte ante o sono ou o peso do resto do corpo sobre aquele respectivo braço. Foi assim que vislumbrou a grande chance de inaugurar e cerrar de uma vez a sua própria liberdade; de sentir-se útil e potente diante da tirania, agora mórbida, da massa encefálica e de sua fiel súdita - a destra -, mesmo que num ato derradeiro e de fenecimento próprio. (Também não queria mais fazer o papel de aia da aia e acordar, com muito esforço, a destra, retirando-lhe debaixo de todo aquele peso)

Tomou-se, então, de um ímpeto próprio dos que são jacobinos e, assim, mesmo sem a destreza de seu simétrico rival (sempre preferido e treinado pelo tirano encarcerado em castelos cranianos), apoderou-se do velho punhal enferrujado que sempre era obrigado a carregar, mas nunca a dirigir. Agora poderia mostrar, não sua habilidade, pois não a tinha, mas todo o seu furor desgovernado sobre tais escravizadores. Acabaria de forma fulminante aquela tirania se atacasse um duto sangüíneo; ou de maneira lenta e cruenta caso apenas fendesse a carne com o tétano daquela imundícia. Sua ira fazia seu sangue ferver e esta quentura, ao mesmo tempo que lhe dava força, como o vapor quente à locomotiva, fazia-se dissipar pelo braço e logo haveria de chegar à base de controle do grande presídio; teria que agir rapidamente, talvez de súbito. Mas como, se nunca foi chamado a ser o protagonista das histórias (e, sim, o figurante sempre)? A quentura parecia ter chegado aos cortinados das ventanas que levam a luz ao grande tirano, pois que seus faróis pareciam já mover-se e os panos ensaiavam levantar-se. Os olhos não em muito tempo se abririam e entregariam a sinistra traidora ao tirano rei, enquanto que aquela espremia o punhal com toda a força que conseguia burlar do grande controlador desacordado.

Como se já esperasse, a sinistra pareceu ter consentido deixar os faróis lhe dedurarem ao tirano plúmbeo, que invocou de imediato sua escudeira fiel, escrava conformada e condecorada com todo o trabalho. Foi assim que a destra se viu impotente pois que ainda demente com a falta do sangue prensado pelo corpo. O sangue cálido que borbulhava o pulso da sinistra já havia chegado também na bomba que então batia em ritmos mais apressados para que logo fosse cuspido ao resto dos vassalos como sinal de alarme. A sinistra já se sentia impotente e atemorizada nem tanto pela quantidade de vassalos que estavam prestes a investir contra ela, mas que pelo sangue que acordara de vez a massa tirana e suscitara a incapacidade e pretermissão que sempre foi o seu grande estigma.

Já não tinha mais razão visto que a própria razão despertara, recompondo sua "dura lex". Nada mais a fazer senão largar o punhal velho e enferrujado e cuidar de acordar a destra (preferida do rei) ainda adormecida e atordoada, coçar mais algumas vezes o calombo ardido e servir em seus serviços serviçais a mais um fatídico dia que prometia para si tédio e desprezo. E, assim, continuava a ser a aia da aia do rei.