19 de mar de 2017

amargem


posicionei-me ao ponto cego
e assumi discretamente o meu lugar
motivado por tua coisa de ignorar
as fracas almas dos sem-ego

não sou narciso nem vampiro
não combino nem com o oito nem oitenta
mas no espelho de águas turvas eu me inspiro
com ilusões que o olhar me inventa

atravessei o mar
rumei à outra margem
tinturei-me com cores do ar
desbotou-se o que era minha imagem

27 de abr de 2011

azar o meu


uma gata preta cruzou meu caminho
eu, que nunca fui um desses de crer em azar,
apenas fiquei vendo a negra gata passar
azar o meu...

16 de abr de 2011

desinvenção


recomeçarei da estaca-zero
sem personagem nem enredo
com o velho figurino de casa

na fala, o sotaque de berço
o andar e o olhar de nascença
fieis à versão original

mas de quê me chamarão?
ainda falta um forte apelo

um nome que chame o dinheiro
dos que compram desinvenções

1 de dez de 2010

o homem sólido


sozinho
ele segue sozinho
e só lida consigo

não se esparrama
nem mesmo se espalha
é sempre contido

estaria impregnado
em tudo o que lhe cerca
líquido ou de gás
leve expansão

mas está só
porque é sólido

é sólido
de solidão

29 de nov de 2010

sem cera


é uma pena
que a tua sinceridade
tenha achado um lugar
junto à impiedade

fez de mim
carrasco de meu castigo,
os farelos do pão
que eu amasso e mastigo

não me queime mais com duras verdades
me poupe de seus pingos de vela.
devolva, sem cera e apagadas
as frias desculpas sinceras

24 de nov de 2010

sirenes


sirenes berram...
ambulâncias, polícia, bombeiros?
recreio!

24 de set de 2010

o couro do coração


sua vida segue seca
com farinha, sem tutano
no sol que cega os poros

mandacaru cerca-lhe o paraíso
é espinhento o oásis do sertão
com poeira e pouca sombra

o único molho que lhe molha
é a pimenta no seu olho
e o barrento coração