22 de mai de 2018

invernos e versões


sempre deixas
que invernos
desfolhem tuas mechas

e ainda te abres
a versões
que transmutem teus ares

já que é dentro da casca
que habita tua seiva,
e é sobre teus pés
que o chão cria raízes

21 de mai de 2018

transições


não virei nada,
só virei outra esquina,
despedindo a menina
e despindo-me mulher

é de você que eu me desfaço
fácil como um folgado laço
ou como um lenço jogado
a ruir o silêncio tanto
desse seu trânsito
em julgado

tarde demais
e já não se fazem
mais homens como anteontem
para as mulheres deste já

tarde demais
e em nada te ajuda
desertar desse seu júri
pra que assim me procure
numa esquina aí qualquer

19 de mai de 2018

leito


na cama, a dama, moça bela,
afia os fios das navalhas
nas línguas dos poetas
--dos ingênuos aos canalhas--
pra depois cortar à vera
a carne rígida que a valha

18 de mai de 2018

incorrespondências


que nem pombo-correio
desmagnetizadamente
perdido de sua rota,
a saudade se faz
informante bem paga
que nunca traz mensagens de fora
--são sempre de dentro--

notícias todas
ultrapassadas,
mas jamais
jamais
superadas.

17 de mai de 2018

flora/1


do banho da noite,
sou eu no geral
que me encarrego.

mentira.
não dou banho,
eu rego!

tilintantes


os ventos ressecam tudo
e, para não virarem vidro,
os olhos precisam de carinho
quando faltam boas vistas.

nem que seja
das próprias pálpebras
a afagarem em piscadelas
ou proverem abrigo
em clausura perpétua.

que, cego, já nem escrevo
(não há linhas que orientem
dos versos os passos
em que me fio)

apenas canto (para preencher
os silêncios dos ninguéns),
exibo risos
(pra se tiver
alguém olhando)

e tento ouvir
o inconfundível tilintar
do raro coração que
como esmola
cai.

16 de mai de 2018

dilatações temporais


talvez o encontre
do mesmo jeito
e no mesmo lugar

mas, tendo sofrido
tão grandes mudanças,
terá achado que também
ele mudou