17 de set de 2018


difusa linha da vida
—no horizonte
ou na mão—

não revela onde vou dar.
talvez apenas reforce,
muito além de onde estou,

quem não sou.

16 de set de 2018

senda


feita de fogo e solidão,
nada parece resistir perto de mim
nem eu resisto à companhia
de quem em mim não perece.
enquanto eu dou hábito
à solidão que me consome,
acabo eu mesma
desnudando tudo o que sou.

13 de set de 2018

o espelho de vênus


ouve, menina, as vozes de tuas irmãs
que vêm de dentro das trincheiras
para onde foram
depois do tempo de caverna.
também teu coração,
não foi para caverna que ele nasceu,
nasceu terra fértil para as flores.
mas antes do jardim, trincheira.

ouve essas vozes de mulher,
porque dessas vozes que tu ouves
--zumbindo em eco no fosso do teu peito--
quer nascer a tua voz.
tua voz salvará teu mundo.
salvará também o meu, homem
cego. que o que me resta de intacto
sobre o ego em farelos é a esperança
de ver um eco de mim em teu espelho.

ouve, mulher.
tua trincheira está pronta pra florir,
que florir é mesmo esta batalha.

12 de set de 2018

11 de set de 2018


roupa amassada
o ferro passou



longe

haicai xx


que grande sacada
sake chokando haikai
rima engarrafada

10 de set de 2018

tapa


oferecer-te a face?
nunca.
não aquela que queres,
não a tapada
com o que te agrada.

a face verdadeira,
eu já te disse:
se queres,
é tua.

mesmo que seja
para outro tapa.

o dia que impalpável nos apanha


engana-se o tempo.
ontem é um dia
que perdura

repousado
já sem asas
nas costas da mão.

rio de dentro


no meio da travessia,
no fundo do meio do rio,
uma prece pela cessação,
o findar de orlas que sejam rasas.

o peso líquido do mundo,
dali, garante-se suportar.
ali até a luz é líquida
ao se dar de beber
e nunca nunca
turva o que se vê.