22 de set de 2017

polar


invadido e confrontado
debatia-se na hermética reclusão
onde se propôs a sepultar-se
livre das estranhas casualidades
entregue ao estabelecido

foi invadido e confrontado
com o que lhe parecia a própria morte
mas vivo era como se sentia
--o que então minava-lhe a vida
era o seu próprio cárcere--

convencido de que habitava
como que nas costas noturnas da lua
intangível e desinteressante aos olhos tantos
agia como se nada mais coubesse fazer
diante do confronto --o que faria?--

e um desconforto lhe invadiu
e quando acontece assim
chega a ser cruel
de tão constrangedor
que é o amor

15 de set de 2017

connivens


com benevolente cegueira
alimentei aquela língua
a cedilha peçonhenta
da palavra maligna

e me isentei de ver
que a língua que te esconjura aos meus ouvidos
é a mesma língua que me difama para os teus
e envenenada e crua, também te ceguei

14 de set de 2017

bastidor


sutura remendos de vida
e brinca de amarelinha nos seus calendários
que cose como se cosem retalhos em colchas
juntando e atando e alinhavando seus dias

--um dia
com outro dia,
com outro dia...--

o que separa seus dias
é o mesmo que os une:
os fios dos novelos noturnos
que puxa dos sonhos com que ela costura
a trama desembaraçada do próprio existir

13 de set de 2017

calibre


sempre que amanhecia
recomeçava a escalada
assim que a tarde ia
a fachada desmoronava

dia-a-dia, dia-a-dia

**

foi por notar que palavras dissolvem
ao quedarem-se à boca

pediu licença
fugiu do discurso
mudou e se mudou e agora
ou faz
ou fica muda

12 de set de 2017

a ser tu


aprazo-me com teu sim
resigno-me com teu não
até ressignificar em mim o termo aceitação

não temo nem me meto a não querer
mas que meta, qual alvo, pra qual fim?

que coisa outra hei de ser
a não ser o momentum
do momento presente?

sendo tu, seria tudo
sendo eu, sou só escudo

10 de set de 2017


mesmo ao mar revolto
volto-me a um quarto de silêncio,
universo desemparedado de formas
--que iludem e sempre passam--
e volto unicamente para ouvir
todo mar que em mim houver

31 de ago de 2017

bem-te-quero


por não seres ser alado,
por eu ser uma avezinha,
cedo ao gosto adocicado
que tão bem se me avizinha

‘inda bem que hoje eu te vi
como que já me esperando;
tu voavas dentro em si,
eu beijava-te cantando

não te digo quem eu sou,
não me fale dos teus ganhos,
entre vindas e arrevoos,
bem te vejo lá nos sonhos