16 de set de 2009

autorretrato glacial


dois ursos hibernantes
por fendas entreabertas de meu peito
permitem conhecê-los
enquanto não lhes passa tal efeito

vem-me um medo: que esses ursos enjaulados não despertem
apesar de eu confiar nos dias quentes que virão

então deformo o peito
fornalha bombeando sangue e fogo
desboto minha imagem
é nudez minha ruína, meu esgoto

e ao passar as minhas horas tête-à-tête com o espelho
tento mesmo é espedaçá-lo e mosaicar-me grão por grão

um plágio michelângelo
expondo minha pós-recriação:
a ardente criatura
e o gélido senhor dessa invenção

19 de mar de 2009

de uma alma assinalada


vive pregando rasteiras
ponteiro apressado
fogueira latente
conta-gotas de fogo

dilua as amarras
dissipe as correntes
marque com ferro as essências

da lua dependem marés
de rumos, os pés
mas e o pensamento?

o futuro é longa estrada a torrar
caminho incinerante, o já
e os tempos idos? chãos de cinzas

ah, pensamento...
chãos de cinzas
vez em quando escondem brasas
se és tu quem pisa

5 de mar de 2009

meridiano


uma porta
sem parede ou muro
sepultada em pé
como morta

encontrei-a
como indagação
sem respostas
num lago de areia

um sinal de parada
bem no meio do meu caminho
na metade da ingrata trilha
que levava pro nada

chance entreaberta
dada em pleno sol a pino

atravessá-la
ou manter-me ao matutino?

1 de mar de 2009

outras doses de mim


meu sorriso no rosto não é
nem pirraça nem vã sedução
é o retardo da minha alegria
o retrato de minha ilusão

e os meus olhos fechados? não são
o meu jeito de o mundo enfrentar
são janelas abertas pra um sol
que aqui dentro 'inda insiste esquentar

quem um dia serviu-se
do meu acanhamento
hoje encontra, em porções,
sensatez e doidice
e até doses de alento

e jamais deixará
de enxergar em meus gestos
as exatas razões
de um desejo indigesto
que é passar do além-mar

***

simplesmente transpor
as barreiras de mim