18 de out de 2017

duas ilhas


ilha de gelo
solta e cercada de mar
não é barco
não sabe o que é continente

ilha gelada
solta e vagando o vazio
não é nave
não sabe o que é constelar

astro falso ou geleira obelisca
distantemente assemelhadas
qualquer hora retorna oceano
qualquer hora apenas faísca

11 de out de 2017

inimponente


equilibrei na cabeça meu caminho marginal
e o levei para uma periferia mais adequada

sumirão as pegadas casuais de cruzamento
ficarão os passos da leal caminhada de rumo
(pra quem é caminho, todo pé faz carinho
para as distâncias, todo caminho é convite)

as placas de seta apontei pra o poente
e até o universo surpreendeu-se com a transgressão
(quem só busca o sol nascendo não vai entender
mas pra quem ruma ao poente, faz sentido
não querer ver o sol partir)

10 de out de 2017

pendular


aquelas folhas secas caídas
juntadas pela mesma vassoura
apanhadas pelo homem de sempre

naquele chão de todo dia
que cada dia nasce novo chão

não são as folhas secas de sempre
as varrições nunca são iguais
o homem já não é o mesmo

5 de out de 2017

ridículo


ridículo
por não saber lidar
com seu gostar tamanho,
tornou-se indigno de quase tudo
digno somente do riso vil
completamente risível
(às vezes nem isso)
de tanto que é
ridículo

1 de out de 2017

alento


cabeça girando
cadência das brisas
não sei onde pisas
se chegas ou quando

mas chegas exata
me encontras baldio
e enchendo o vazio
teu vento me cata

22 de set de 2017

polar


invadido e confrontado
debatia-se na hermética reclusão
onde se propôs a sepultar-se
livre das estranhas casualidades
entregue ao estabelecido

foi invadido e confrontado
com o que lhe parecia a própria morte
mas vivo era como se sentia
--o que então minava-lhe a vida
era o seu próprio cárcere--

convencido de que habitava
como que nas costas noturnas da lua
intangível e desinteressante aos olhos tantos
agia como se nada mais coubesse fazer
diante do confronto --o que faria?--

e um desconforto lhe invadiu
e quando acontece assim
chega a ser cruel
de tão constrangedor
que é o amor

15 de set de 2017

connivens


com benevolente cegueira
alimentei aquela língua
a cedilha peçonhenta
da palavra maligna

e me isentei de ver
que a língua que te esconjura aos meus ouvidos
é a mesma língua que me difama para os teus
e envenenada e crua, também te ceguei

14 de set de 2017

bastidor


sutura remendos de vida
e brinca de amarelinha nos seus calendários
que cose como se cosem retalhos em colchas
juntando e atando e alinhavando seus dias

--um dia
com outro dia,
com outro dia...--

o que separa seus dias
é o mesmo que os une:
os fios dos novelos noturnos
que puxa dos sonhos com que ela costura
a trama desembaraçada do próprio existir

13 de set de 2017

calibre


sempre que amanhecia
recomeçava a escalada
assim que a tarde ia
a fachada desmoronava

dia-a-dia, dia-a-dia

**

foi por notar que palavras dissolvem
ao quedarem-se à boca

pediu licença
fugiu do discurso
mudou e se mudou e agora
ou faz
ou fica muda

12 de set de 2017

a ser tu


aprazo-me com teu sim
resigno-me com teu não
até ressignificar em mim o termo aceitação

não temo nem me meto a não querer
mas que meta, qual alvo, pra qual fim?

que coisa outra hei de ser
a não ser o momentum
do momento presente?

sendo tu, seria tudo
sendo eu, sou só escudo

10 de set de 2017


mesmo ao mar revolto
volto-me a um quarto de silêncio,
universo desemparedado de formas
--que iludem e sempre passam--
e volto unicamente para ouvir
todo mar que em mim houver

31 de ago de 2017

bem-te-quero


por não seres ser alado,
por eu ser uma avezinha,
cedo ao gosto adocicado
que tão bem se me avizinha

‘inda bem que hoje eu te vi
como que já me esperando;
tu voavas dentro em si,
eu beijava-te cantando

não te digo quem eu sou,
não me fale dos teus ganhos,
entre vindas e arrevoos,
bem te vejo lá nos sonhos

27 de ago de 2017

haicai x


minha casa é grande:
aponte para o horizonte
que até lá se expande

portador


cheguei e adentrei
todos olharam pra saber quem era
olharam, aliás, pra confirmar se era eu
me reconheciam pela sombra

meu destino lá fora nunca foi encontrar
meu destino sempre foi procurar
dessa vez encontrei
mas ninguém reparou

todos me viam pela sombra
o que encontrei
eu trouxe em meu olhar

25 de ago de 2017

escassas


às vezes um aceno,
mas quase nunca um abraço
vai ver nem é tão profundo, ao passo
que é melhor se contentar com o pequeno,
com as modestas audiências
e com as ralas preferências

24 de ago de 2017

são


é só abrir a boca
que entra um personagem
basta se calar
que some a maquiagem

sem ruído surge a vida
sem barulho ela se vai
por que a vida se complica
no silêncio que não faz?

de palha


considerei mortas
todas as minhas rotas
ao soterrar meus pés no chão

vou somente com o olhar
no voo da sabiá
ou na fuga das aves de arribação

protejo, me projeto
exponho e enfim espanto
como assina minha sina

de poeira
de palha
fincado no chão

23 de ago de 2017

areal


alma de pipa empinada
em seu sonho, é mais leve que o ar
larga os fardos, flutua com fadas
brilham olhos repletos de mar

os bons ventos inspiram marés
desfilam as cores que o sol presenteia

deixa nas nuvens as marcas dos pés
e baila num céu bronzeado e vestido de areias


* imagem generosamente presenteada pela fotógrafa e poeta Cris Leão: cris_leao_ e fotografando_almas.

22 de ago de 2017

paralela


o poeta olhava indiferente
as teorias avançadas da ciência:
dobras do espaço-tempo, multiversos…
“que coisa ultrapassada!”

em seus palcos,
das suas penas
os enredos já eram atemporais
e reais

do amor daquele mundo paralelo
faltavam-lhe apenas
fotos pra recordar

21 de ago de 2017


coleciono
--mas não colho--
flores que não são minhas,
que encontro
em meus caminhos

nada é meu,
eu coleciono caminhos
e sou dos caminhos

18 de ago de 2017

almar


o corpo
--esse maciço metal
que ancora o que há de alma--
sente e se arrasta ao fundo
toda vez que o amar abala a calma

17 de ago de 2017

aparentemente


ao que parece,
ela tudo lê,
tudo sente

só parece não ler
aquilo que está
mais do que evidente

ou não lê
ou apenas mente
por não querer

16 de ago de 2017

particípie!


tô pronto
de ponto batido
de banho tomado
comida comida

de panos passados
verdades preditas
também escutadas
quem sabe fugidas

de beijo sonhado
de sonho assanhado
e é tudo e mais nada
mas... por ora nada

15 de ago de 2017

onde ondas


por onde anda,
que já não me olha?
mesmo que se molhe,
não se afogue
nem suma.

em suma,
todo balanço é um molho.
então, não se afobe
mesmo que
por ondas ande.

14 de ago de 2017


cadê que não chega?
não sento, te espero...
sem essa de chá de cadeira!

cadê minhas pernas?
não sinto, te espeto!
sem pressa, tomei o meu chá de cadê…

soneto do insensato amor


se milagreiros fossem os meus versos
a ponto tal de, enfim, ganharem vida,
traria a poesia em ti contida
aos meus sentidos tortos e dispersos.

transcreveria o que possível fosse
e um plágio teu --só meu-- construiria:
métricas, rimas e uma alegoria
com cheiro de bebê e o timbre doce.

até tomé, que hoje crê facilmente,
se espantaria, pedindo sinais,
ao deparar-se com a insanidade

de trovador em meus vícios carnais;
e te amaria em papel e deidade
confiando que o milagre não mente.

11 de ago de 2017

penada


batem-lhe palmas
cada vez que, de si,
ele conta as vantagens

mas batem-lhe palmas
pra não contraírem --ah, sim--
sua vida penada só com desvantagens

9 de ago de 2017

porém-mar


nas linhas do meu pergaminho azulado,
no oceano onde eu quis estender meu quintal
planto versos e espero nascer flor de maio...
porém, quando me basto na devassidão do teu mar,
morro afogado de amor em teu "mas".

8 de ago de 2017

das coisas cuoreconcretas


tenho pra mim que ternura
é um tipo de carinho que o coração recebe
na hora em que ele, por sua vez,
se põe a acarinhar

e que abraço é mais afago de peito
do que mero formalismo dos braços
--não devia, portanto, chamar-se apeito?--

assim,
suponho convicto que essas coisas
são bem mais que abstratos conceitos;
tenho pra mim que é bem mais direito
dizer que é algo querendo se concretar

dês vários


duas rédeas atadas
dois cavalos teimosos
direções opostas lacerando a alma
deixando ao que existe de corpo
danos e dramas sem ganhos

haicai ix


tão perdida a mente,
rumamos sem norte e vamos
sofrendo ocidente

7 de ago de 2017


fui morar ao abrigo
duma amendoeira simpática
debaixo daquela folha ali
que sempre acena pra quem passa
e ao vento chama
“vem tu”

6 de ago de 2017

nos


aquela fera incógnita
de quem apenas eu fugia
em meio à doença de meus sonhos,
quem sou?

onde havia uma bússola,
enxergou relógio

em vez de rumar ao futuro,
acabou regressando ao sul

acontece


às vezes,
velhos viram poetas
seja por conta de amores extemporâneos,
seja por medo de divãs
--o que é quase a mesma coisa--

no seu caso,
já perdeu as contas
de quantas vezes envelheceu,
de quantos amores foi obrigado a trancar
     do lado de fora
e em quantos divãs se negou a deitar

acontece que
versos mesmo
nunca soube amar
nem deitar ao papel

4 de ago de 2017


riso miúdo
chega de finim
ria dos amantes
sonhava os infantes
ou só mangava de mim?

3 de ago de 2017

aluamento


corações abestalhados,
nunca se confessem à lua cheia
fofoqueira, ela é sempre a primeira
a espalhar aos quatro cantos
os segredos solares calados
por trás dos mundos
assim que ele
se põe

pia


o não-saber é asa que não voa...
se insiste batê-la, à piação depena
rasteja, rouca, não voa
que chega dá pena

1 de ago de 2017

quid pro quo


é sangue latinto
na taça vertida
pulsando verdades
em línguas pretéritas
do-in vino veritas
pressiona meus nós
roldão, quiprocó

31 de jul de 2017

deriva-me


encontrei-te continente esfarelado
teus pedaços te fazendo companhia
e pro mar nos rejuntar como em mosaico
ancorei na tua ilha mais tardia

lá de longe, teu farol não me percebe
aos seus pés, também já não me percebia
minhas febres, meus delírios voam baixo
alisando de teus mares cada estria

rumam ávidos e impávidos
talvez saibas: foi amor
mas piratas também fogem
desconhecerás quem sou

29 de jul de 2017

trinca


fiquei trancado por dentro
fiquei trincado por fora
sou porta semicerrada
sou o erro de ideias mortas

mas meu convite é aberto
o aperto é só na entrada
entranhas intimidadas
intimidades cobertas

(da série “ESPALHANDO POESIAS nos comentários alheios” - instagram @interludios.meus no poema de @saulo_pessato)

advinhas


vá palpitando errado
arriscando acertar em cheio
quem tropeça nas próprias pernas
faz o chute ser em si mesmo
é tiro no escuro
disparado contra o próprio pé
revelando o alvo
e acabando todo o desacerto

28 de jul de 2017

por dentro


estampada
nas contracapas
de todas as minhas diferentes máscaras
uma velha imagem em desuso
em baixo relevo
e de baixa relevância
quando se trata
de mim mesmo

(da série “ESPALHANDO POESIAS nos comentários alheios” - instagram @interludios.meus no poema de @lagrimaspoeticas)

26 de jul de 2017


sinceramente
sei não, caetano...
de longe, todo mundo é estranho
de perto é que a gente conhece o que é
e a estranheza se desfaz

25 de jul de 2017

praga persistente


foi por um rio que cheguei,
mesmo não tendo rio aqui.
foi dele que desafoguei
tudo que ainda não nasci

na inclemência do chão quente,
deitei-me inteira em cicatriz.
na terra estéril e repelente,
fugi de amar e ser feliz

foi por um fio que fiquei
o amor é praga persistente
cria raízes, força a lei
enxerga rio onde há nascente

23 de jul de 2017


no baile das ressacas,
o que as ondas bagunçam,
os ventos tratam de rearrumar

22 de jul de 2017

diluição


preferia overdose;
dela só restam fragmentos
diluídos no imenso do mar

suas águas agora são outras
--mas todo oceano no fim se conecta--

e se, lá, ela ainda se banha
ele, aqui, também adentra no mar
como que pra tomá-la

que nem homeopatia

21 de jul de 2017

dos caminhos


fingia pescar,
mas apenas caçava garrafas…
e, engarrafando seus sonhos,
lançava de volta as garrafas ao mar

{tudo convém:
os sonhos se guiam sozinhos
--não carecem de velas ou bússolas--
e o mar --favorável-- conhece os destinos}

os sonhos seguiam sozinhos
e conheciam os pés a atracar

20 de jul de 2017

inanição


traria-te à luz
e a lei te conheceria.
mas que te faria a lei?
que garantias de sobrevida terias?

nada cometeste,
foste acometido;
trazer-te à luz e tentar te alimentar
ou te matar de inanição?

19 de jul de 2017

vagas


sua ruína
foi crer-se desejado
pela dona daquele olhar risonho

bobagem

ser alcançado
por ondas e marés
quer dizer ser cobiçado pelo mar?