10 de dez de 2017

virtus


o meu pobre poema postado
recebeu like de um centro de estética
teria sido aquilo um aplauso?
ou uma sutil crítica poética?

intento


como se não possuísse as chaves
bateu à porta de meus sonhos
e sentou-se esparramada
em minha mão direita

o tempo ausentado
em paredes sem relógio
e ela rapidando em desatar
de seus ombros os seus cansaços

sempre acolhido em meus sufocos
coube justo a mim ser o refúgio
e nutrir com a paz assimilada
a quem é a minha paz

8 de dez de 2017


sentia demasiadamente
ainda que não tivesse usado
todos os seus sentidos
sentir era como sua
sentença

de atalhos


olham para os olhos dela
mas não se atentam em olhar
o que estão olhando os olhos dela

compasso


entre as coisas que encurtam gente
gosto mais de foto do que de saudade

--foto encolhe gente
mas consegue disfarçar tudo
até mesmo a saudade que a gente sente--

já saudade
bem podia ser igual lente…
mas quanto maior a distância
mais o ser que sente fica diminuto

e embora se tratando de lonjuras
não é no olho que saudade se mede
saudade é assunto de batidas de tempo:

de meses, de dias, de horas
saudade inclusive que nem eu:
de minuto

7 de dez de 2017

sentido


renunciou à corrida
à maratona enfurecida
e voltou-se à caminhada
depois de ter-se dado conta
que a estrada ia se abrindo
a cada olhar colhido

5 de dez de 2017

vaso


desobrigados de chorar
uma vez engarrafada
alguma idade

agora choramos
pra dar voz
à vazão

grave


quando eu disse
miudinho miúdo
que lacei um raio de luz
empenei a luz daquele raio
e fiz a luz se acocorar pra você
pra que fosse vista no que se há de ver
chega mangou de mim

se mangou ou só riu de nervoso
só sei que ri também
porque pequenas gravidades
também entortam luz

2 de dez de 2017

te lúrica


se com a palma escavo os vales
com as costas moldo montes

das nascentes achadas
despertam-se fluxos

viva e úmida
a terra me chama

ardente e sepultado
eu me consumo

afluências


aqui
este não-lugar
esta exata conjunção
entre o agora e o nosso chão

para onde até então
alheios temos sido conduzidos
tanto por sins como por tantos nãos
mas sempre sempre conduzidos pelas mãos

aqui
onde hoje eu a guardo
a partir de onde nós nos aguardamos

por finalmente nos sabermos cumpridos
ainda que de modo algum
prometidos

30 de nov de 2017

lei é lei


que nasça miúdo
que nasça incerto
mas que seja zelado:
o amor sempre vinga

banzo


presumi ter ido além das utopias galeanas
quando dispensei meus olhos e pés
para alcançar os horizontes

em vez de caminhar, sentei-me aqui arriba
de onde até vejo as intermitências
do vagalume de itapuã

afinei uma vara de pesca
fiz da mão alavanca e anzol

espanta-me agora ter que explicar
como reboquei horizontes para os meus pés

28 de nov de 2017

caudal


alma menina
dos cursos das águas
não é um coração
que te faz correnteza

teus rios e teus leitos
é que ordenam compassos
das rodas que pulsam
moinhos do peito

27 de nov de 2017

timbre


quando vens palavra
trajada de brisa ou vestida de brasa
basta que venhas

e bem vinda
tu me brisas
ou tu me brasas

26 de nov de 2017

azo


posso comandar os ventos
mas não comando os pássaros
cada asa é comandada
pelo vento que lhe convém

do pó


da pedrada à sua carne
o menino sabia nada
nem razão, nem origem
como sabia nada do céu e do resto

-- de novo a cega ira divina
que em seu erro me acerta
e em seu juízo nunca me escuta?

assim acreditava nascerem
novas pedras, sua herança e seu legado:
da terra seca colhendo a pedra atirada;
em seu lugar plantando sangue e choro
subtraídos

22 de nov de 2017

antro


apanhei-as como herança
ao sonhar em deixar legados
mas sou eu o legado delas
sou o que persistiu
ao voltarem pó

20 de nov de 2017

a dor mente


dói-lhe
aquele medo
de sentir a dor

dorme
e em seu segredo
vem sanar o amor

afundo


sempre foi leigo
é leigo ainda hoje
e não alega sabê-lo

de um ponto fora da curva
aquilo faz rebentar curva nova
inédito curso de vida
na alma de couro branquim

como compreender?
aquilo não é bem matéria
de se conhecer a fundo

a fundo, só em mergulhos
suspiros profundos
e apnéias longadas
sempre fôlego

19 de nov de 2017

ambi idades


de minhas pegadas infantes
ainda trago alguma incerteza
mas também certos ímpetos
que me arrastam a céus e infernos

devo ser de um tudo
mas é minha estatura que me faz homem?
foi meu coração que me fez menino?
fica assim: sou homem e menino

e o que sou vou aprendendo
o que importa é o chão encontrado
o chão que me firma
que põe-me de pé

18 de nov de 2017

vias


nas manhãs, tardes e noites meninas
ele fabrica infinitos
ela transgride suas sinas

17 de nov de 2017

abrigo


mesmo às espessas nuvens
mesmo à espalmada mão
o único que lhe chovia
era seu pingo de paz

15 de nov de 2017

urge


veio-me com a mesma urgência de um rio
disparado, sem lembrar de plantar nuvens
escapulindo do chupão do céu e do chão
farejando caminhos fáceis pra seu mar

a mesma urgência dos jambos
que deitam rosa atapetado ao chão
pra que se joguem em queda sem dores

urgência em --ao me reconhecer no mar,
no chão ou nas palavras que calamos--
me unir na entrega do que já encontrei

14 de nov de 2017

ou quantos


de tudo o que há de poesia
de nós colhida, compilada, copulada
findando por perpetuar
nossa espécie
--de amor--

quais de fato fizemos nascer?
de quais de fato fomos nascidos?

10 de nov de 2017

todos


dia ainda cedo
já se tardavam
e harmonizavam
caminhos, suaves e secos

tarde da noite
se amanheciam
sedentos, cediam
a curvas, a uvas e efeitos

8 de nov de 2017

destinação


eu rabisco versos
e não é nem pra nada:
o tinteiro é que às vezes pesa
e a pressa arrisca sempre me alcançar

por isso o peito inventa de fazer estrada
daquelas que a gente não sabe
se fica vendo se afastar
ou se apenas sonha

6 de nov de 2017

aluanda


tocava e tangia os ventos
e o chão sempre a lhe suplicar os pés

não deve ser fácil ter asas
se há âncoras impostas;
mais difícil ainda deve ser âncora
quando a alma é impetuosa no voar

âncora vira anzol
o voo iça um mundo...
não deve ser fácil ser chão
não deve ser coisa fácil ser mundo!

4 de nov de 2017

expilo


desde quando me entendo por gente
sempre me desencontrei de mim
gente, gente...
nunca me vi

31 de out de 2017

levada


eu não tenho coisa alguma
nem o que levo comigo é meu
tudo que tenho
é o que me leva

30 de out de 2017

majestações


basta o dia demitir-se
e o sonho perdoa toda realidade

as ruas demonstram o que há nas casas
as casas, o que há nos lares
os lares, o que há nas almas

mesmo assim --e por isso mesmo-- a realidade erra
reduz-se, contida; não se mostra inteira

somente à noite algumas almas encontram lar
à noite admitida, as almas vão habitar os sonhos
nos sonhos, as almas se tornam reais

27 de out de 2017

l'unicque/lúnica


sou prisioneira das fases, das claves do Sol
eu orbito (não nego!), mas não me assossego
e provoco-me a sós

vou além e provoco-te em danças de mares
que acorrem a mim; e nas luzes que furto
de brisas solares

e a plenos pulmões, me aproprio de um canto
que canta os desejos da rouca voz minha
que canta na louca voz minha

desejos que finjo
não serem
os meus

25 de out de 2017

18 de out de 2017

duas ilhas


ilha de gelo
solta e cercada de mar
não é barco
não sabe o que é continente

ilha gelada
solta e vagando o vazio
não é nave
não sabe o que é constelar

astro falso ou geleira obelisca
distantemente assemelhadas
qualquer hora retorna oceano
qualquer hora apenas faísca

11 de out de 2017

inimponente


equilibrei na cabeça meu caminho marginal
e o levei para uma periferia mais adequada

sumirão as pegadas casuais de cruzamento
ficarão os passos da leal caminhada de rumo
(pra quem é caminho, todo pé faz carinho
para as distâncias, todo caminho é convite)

as placas de seta apontei pra o poente
e até o universo surpreendeu-se com a transgressão
(quem só busca o sol nascendo não vai entender
mas pra quem ruma ao poente, faz sentido
não querer ver o sol partir)

10 de out de 2017

pendular


aquelas folhas secas caídas
juntadas pela mesma vassoura
apanhadas pelo homem de sempre

naquele chão de todo dia
que cada dia nasce novo chão

não são as folhas secas de sempre
as varrições nunca são iguais
o homem já não é o mesmo

5 de out de 2017

ridículo


ridículo
por não saber lidar
com seu gostar tamanho,
tornou-se indigno de quase tudo
digno somente do riso vil
completamente risível
(às vezes nem isso)
de tanto que é
ridículo

1 de out de 2017

alento


cabeça girando
cadência das brisas
não sei onde pisas
se chegas ou quando

mas chegas exata
me encontras baldio
e enchendo o vazio
teu vento me cata

22 de set de 2017

polar


invadido e confrontado
debatia-se na hermética reclusão
onde se propôs a sepultar-se
livre das estranhas casualidades
entregue ao estabelecido

foi invadido e confrontado
com o que lhe parecia a própria morte
mas vivo era como se sentia
--o que então minava-lhe a vida
era o seu próprio cárcere--

convencido de que habitava
como que nas costas noturnas da lua
intangível e desinteressante aos olhos tantos
agia como se nada mais coubesse fazer
diante do confronto --o que faria?--

e um desconforto lhe invadiu
e quando acontece assim
chega a ser cruel
de tão constrangedor
que é o amor

15 de set de 2017

connivens


com benevolente cegueira
alimentei aquela língua
a cedilha peçonhenta
da palavra maligna

e me isentei de ver
que a língua que te esconjura aos meus ouvidos
é a mesma língua que me difama para os teus
e envenenada e crua, também te ceguei

14 de set de 2017

bastidor


sutura remendos de vida
e brinca de amarelinha nos seus calendários
que cose como se cosem retalhos em colchas
juntando e atando e alinhavando seus dias

--um dia
com outro dia,
com outro dia...--

o que separa seus dias
é o mesmo que os une:
os fios dos novelos noturnos
que puxa dos sonhos com que ela costura
a trama desembaraçada do próprio existir

13 de set de 2017

calibre


sempre que amanhecia
recomeçava a escalada
assim que a tarde ia
a fachada desmoronava

dia-a-dia, dia-a-dia

**

foi por notar que palavras dissolvem
ao quedarem-se à boca

pediu licença
fugiu do discurso
mudou e se mudou e agora
ou faz
ou fica muda

12 de set de 2017

a ser tu


aprazo-me com teu sim
resigno-me com teu não
até ressignificar em mim o termo aceitação

não temo nem me meto a não querer
mas que meta, qual alvo, pra qual fim?

que coisa outra hei de ser
a não ser o momentum
do momento presente?

sendo tu, seria tudo
sendo eu, sou só escudo

10 de set de 2017


mesmo ao mar revolto
volto-me a um quarto de silêncio,
universo desemparedado de formas
--que iludem e sempre passam--
e volto unicamente para ouvir
todo mar que em mim houver

31 de ago de 2017

bem-te-quero


por não seres ser alado,
por eu ser uma avezinha,
cedo ao gosto adocicado
que tão bem se me avizinha

‘inda bem que hoje eu te vi
como que já me esperando;
tu voavas dentro em si,
eu beijava-te cantando

não te digo quem eu sou,
não me fale dos teus ganhos,
entre vindas e arrevoos,
bem te vejo lá nos sonhos