30 de dez de 2017

o levante


se do dia ou da noite
se indicava que já haviam findado tudo
ou que ainda não haviam inaugurado nada
minha memória escurecida não soube inferir

sei que meus olhos viram a claridade
e era precisamente a do nada
como uma tela alheia à arte
onde nem mesmo os ecos de mim
arriscaram se projetar

e desta vez assim
desamparado de imagens
ouvi a brincante esperança
tocando à minha porta e depois fugindo
como fiz criança

e eu sabia que tinha sido a esperança
já que a porta que abri
não me deixou voltar atrás

interface


aquela tênue camada
que teima em colar
meus sonhos
à minha realidade
por hora sou eu

29 de dez de 2017

autômato


barca autômata
que já não se prende a cordas e correntes
desde que amputou-se das alças

seu timoneiro já sabe:
ao seu porto só adere pelo mesmo exato visco
que atrai o porto ao mar

não seria livre como é
se não levasse ventos ou correntezas
marés ou ressacas em seu convés

não seria o que é
muitíssimo pelo contrário:
seria só ancoração

27 de dez de 2017

arfar


na insistência do vento
as bandeiras ganham sentido

nos suspiros
que desempoeiram
do peito as saudades
é do vento a companhia

o meu chiado
ao falar te?
sotaque do vento

mas não terá culpa
quando o vento
tiver que faltar

26 de dez de 2017

transbordo


é bom poder falar
ter lugar onde derramar-se
desaguar que nem rio faz
ainda que falte
a foz

25 de dez de 2017

estivador


tendo que ser jangadeiro e jangada
fardos e fardos sobre o lombo
como concorreria com largas
embarcações de carga?

mas a maré vazou tanto
que aquilo se fez porto seco
e eu mantive os pés que me nasceram
enquanto morava em meu primeiro mar

um dia
estive à dor
hoje estou a dar
os primeiros passos

execução


mal chegava ao mundo
sua morte já se sentenciava
com nome listado na grande fila
para a série de execuções agendadas

não se trata mais
de execuções capitais
e já não é a casca do homem
que morrerá

nos tempos de agora
um só homem morrerá
um sem-número de vezes
a execução acontecerá no interior
onde vive morrendo o homem de dentro

23 de dez de 2017

mente


ela até parece me olhar
mas é pra lente que olha
e olhando pra lente
também queira o olhar
de quem ela leva na mente

tem dias que não ligo pra nada
em outros tudo no mundo
parece estar ligado a mim
em curto-circuito

engarrafado


a voz do mar que voa ventos de sal
o hálito cheiroso do mar que beiro
bateu-me como se eu fosse vela
--delas só trago as brancuras
e a vontade de desatar--

e lembrei-me de quando guardei
naquele vidro de perfume
gotas da voz do teu rio
pálida, doce e alada

que sempre que bebo
que cheiro ou que ouço
leva-me louco a acreditar até
que minha voz também é um mar

21 de dez de 2017

deleito


perverso para ti?
cruel pra quem não é de direito?

as palavras que deito
dentro em teus ouvidos
escorrem
e também se deitam
nos perversos versos meus

monarca


visita-me sem delongas
curto o tempo que tem
vive pra sonhos grandes
e sonha infinitos
mas nem parece

dos poucos infinitos que sonha
este é o que mais prefere:
o nada
o infinito das coisas poucas
onde reina e passa
mas não perece

20 de dez de 2017

valia


de quando em quando
a paz pode custar
uma paz

ex-posição


desatem essas rédeas de meus pulsos
o que suponho controlar me controla
vil a ilusão que me torna escrava
que ofusca toda minha paz

aprisionem-me em uma noite qualquer
passei a sofrer tormentos solares
inseguranças de realidade
quem sabe causadas
por estar sol
e eu nua

19 de dez de 2017


tem vezes que uma ficção dói tanto em mim
que até parece bastante real
este meu coração

18 de dez de 2017

revenge


roubei-te
um sorriso quase entregue
tão recém amanhecido
preso pelos lábios
contido pelos dentes

roubei-te
mas depois deixei aviso
e ele abriu-se tão rendido
que até me comprometi
roubar-te aos infinitos

17 de dez de 2017

errante


as linhas
que não grafo
traçam meu recinto
o canto
que não canto
não encarno ou osso
a arte
que não parto
jazz no calabouço
a falta
que não faço
só sou eu que sinto

13 de dez de 2017

desvelo


as mãos se renderam
depois de as almas
reconhecerem-se
tão somente
pelo tato

represas


passam extintos
acumulados de pressa
se enrolando em ofícios
e até deslembrando
que têm que parar

mas logo

param famintos
se atropelando sem pressa
enroscando seus corpos
e quase esquecendo
de se levantar

12 de dez de 2017

sela


forçado o delito
regresso ao meu cárcere
sustentado por tua água e teu pão

e a partir da hora que ganhei
nome igual ao nome das pedras que talho
basta-me que me reconheçam pelos retratos falados
que eu mesmo me falso

10 de dez de 2017

virtus


o meu pobre poema postado
recebeu like de um centro de estética
teria sido aquilo um aplauso?
ou uma sutil crítica poética?

intento


como se não possuísse as chaves
bateu à porta de meus sonhos
e sentou-se esparramada
em minha mão direita

o tempo ausentado
em paredes sem relógio
e ela rapidando em desatar
de seus ombros os seus cansaços

sempre acolhido em meus sufocos
coube justo a mim ser o refúgio
e nutrir com a paz assimilada
a quem é a minha paz

8 de dez de 2017


sentia demasiadamente
ainda que não tivesse usado
todos os seus sentidos
sentir era como sua
sentença

de atalhos


olham para os olhos dela
mas não se atentam em olhar
o que estão olhando os olhos dela

compasso


entre as coisas que encurtam gente
gosto mais de foto do que de saudade

--foto encolhe gente
mas consegue disfarçar tudo
até mesmo a saudade que a gente sente--

já saudade
bem podia ser igual lente…
mas quanto maior a distância
mais o ser que sente fica diminuto

e embora se tratando de lonjuras
não é no olho que saudade se mede
saudade é assunto de batidas de tempo:

de meses, de dias, de horas
saudade inclusive que nem eu:
de minuto

7 de dez de 2017

sentido


renunciou à corrida
à maratona enfurecida
e voltou-se à caminhada
depois de ter-se dado conta
que a estrada ia se abrindo
a cada olhar colhido

5 de dez de 2017

vaso


desobrigados de chorar
uma vez engarrafada
alguma idade

agora choramos
pra dar voz
à vazão

grave


quando eu disse
miudinho miúdo
que lacei um raio de luz
empenei a luz daquele raio
e fiz a luz se acocorar pra você
pra que fosse vista no que se há de ver
chega mangou de mim

se mangou ou só riu de nervoso
só sei que ri também
porque pequenas gravidades
também entortam luz

2 de dez de 2017

te lúrica


se com a palma escavo os vales
com as costas moldo montes

das nascentes achadas
despertam-se fluxos

viva e úmida
a terra me chama

ardente e sepultado
eu me consumo

afluências


aqui
este não-lugar
esta exata conjunção
entre o agora e o nosso chão

para onde até então
alheios temos sido conduzidos
tanto por sins como por tantos nãos
mas sempre sempre conduzidos pelas mãos

aqui
onde hoje eu a guardo
a partir de onde nós nos aguardamos

por finalmente nos sabermos cumpridos
ainda que de modo algum
prometidos

30 de nov de 2017

lei é lei


que nasça miúdo
que nasça incerto
mas que seja zelado:
o amor sempre vinga

banzo


presumi ter ido além das utopias galeanas
quando dispensei meus olhos e pés
para alcançar os horizontes

em vez de caminhar, sentei-me aqui arriba
de onde até vejo as intermitências
do vagalume de itapuã

afinei uma vara de pesca
fiz da mão alavanca e anzol

espanta-me agora ter que explicar
como reboquei horizontes para os meus pés

28 de nov de 2017

caudal


alma menina
dos cursos das águas
não é um coração
que te faz correnteza

teus rios e teus leitos
é que ordenam compassos
das rodas que pulsam
moinhos do peito

27 de nov de 2017

timbre


quando vens palavra
trajada de brisa ou vestida de brasa
basta que venhas

e bem vinda
tu me brisas
ou tu me brasas

26 de nov de 2017

azo


posso comandar os ventos
mas não comando os pássaros
cada asa é comandada
pelo vento que lhe convém

do pó


da pedrada à sua carne
o menino sabia nada
nem razão, nem origem
como sabia nada do céu e do resto

-- de novo a cega ira divina
que em seu erro me acerta
e em seu juízo nunca me escuta?

assim acreditava nascerem
novas pedras, sua herança e seu legado:
da terra seca colhendo a pedra atirada;
em seu lugar plantando sangue e choro
subtraídos

22 de nov de 2017

antro


apanhei-as como herança
ao sonhar em deixar legados
mas sou eu o legado delas
sou o que persistiu
ao voltarem pó

20 de nov de 2017

a dor mente


dói-lhe
aquele medo
de sentir a dor

dorme
e em seu segredo
vem sanar o amor

afundo


sempre foi leigo
é leigo ainda hoje
e não alega sabê-lo

de um ponto fora da curva
aquilo faz rebentar curva nova
inédito curso de vida
na alma de couro branquim

como compreender?
aquilo não é bem matéria
de se conhecer a fundo

a fundo, só em mergulhos
suspiros profundos
e apnéias longadas
sempre fôlego

19 de nov de 2017

ambi idades


de minhas pegadas infantes
ainda trago alguma incerteza
mas também certos ímpetos
que me arrastam a céus e infernos

devo ser de um tudo
mas é minha estatura que me faz homem?
foi meu coração que me fez menino?
fica assim: sou homem e menino

e o que sou vou aprendendo
o que importa é o chão encontrado
o chão que me firma
que põe-me de pé

18 de nov de 2017

vias


nas manhãs, tardes e noites meninas
ele fabrica infinitos
ela transgride suas sinas

17 de nov de 2017

abrigo


mesmo às espessas nuvens
mesmo à espalmada mão
o único que lhe chovia
era seu pingo de paz

15 de nov de 2017

urge


veio-me com a mesma urgência de um rio
disparado, sem lembrar de plantar nuvens
escapulindo do chupão do céu e do chão
farejando caminhos fáceis pra seu mar

a mesma urgência dos jambos
que deitam rosa atapetado ao chão
pra que se joguem em queda sem dores

urgência em --ao me reconhecer no mar,
no chão ou nas palavras que calamos--
me unir na entrega do que já encontrei