18 de ago de 2017

almar


o corpo
--esse maciço metal
que ancora o que há de alma--
sente e se arrasta ao fundo
toda vez que o amar abala a calma

17 de ago de 2017

aparentemente


ao que parece,
ela tudo lê,
tudo sente

só parece não ler
aquilo que está
mais do que evidente

ou não lê
ou apenas mente
por não querer

16 de ago de 2017

particípie!


tô pronto
de ponto batido
de banho tomado
comida comida

de panos passados
verdades preditas
também escutadas
quem sabe fugidas

de beijo sonhado
de sonho assanhado
e é tudo e mais nada
mas... por ora nada

15 de ago de 2017

onde ondas


por onde anda,
que já não me olha?
mesmo que se molhe,
não se afogue
nem suma.

em suma,
todo balanço é um molho.
então, não se afobe
mesmo que
por ondas ande.

14 de ago de 2017


cadê que não chega?
não sento, te espero...
sem essa de chá de cadeira!

cadê minhas pernas?
não sinto, te espeto!
sem pressa, tomei o meu chá de cadê…

soneto do insensato amor


se milagreiros fossem os meus versos
a ponto tal de, enfim, ganharem vida,
traria a poesia em ti contida
aos meus sentidos tortos e dispersos.

transcreveria o que possível fosse
e um plágio teu --só meu-- construiria:
métricas, rimas e uma alegoria
com cheiro de bebê e o timbre doce.

até tomé, que hoje crê facilmente,
se espantaria, pedindo sinais,
ao deparar-se com a insanidade

de trovador em meus vícios carnais;
e te amaria em papel e deidade
confiando que o milagre não mente.

11 de ago de 2017

penada


batem-lhe palmas
cada vez que, de si,
ele conta as vantagens

mas batem-lhe palmas
pra não contraírem --ah, sim--
sua vida penada só com desvantagens

9 de ago de 2017

porém-mar


nas linhas do meu pergaminho azulado,
no oceano onde eu quis estender meu quintal
planto versos e espero nascer flor de maio...
porém, quando me basto na devassidão do teu mar,
morro afogado de amor em teu "mas".

8 de ago de 2017

das coisas cuoreconcretas


tenho pra mim que ternura
é um tipo de carinho que o coração recebe
na hora em que ele, por sua vez,
se põe a acarinhar

e que abraço é mais afago de peito
do que mero formalismo dos braços
--não devia, portanto, chamar-se apeito?--

assim,
suponho convicto que essas coisas
são bem mais que abstratos conceitos;
tenho pra mim que é bem mais direito
dizer que é algo querendo se concretar

dês vários


duas rédeas atadas
dois cavalos teimosos
direções opostas lacerando a alma
deixando ao que existe de corpo
danos e dramas sem ganhos

haicai ix


tão perdida a mente,
rumamos sem norte e vamos
sofrendo ocidente

7 de ago de 2017


fui morar ao abrigo
duma amendoeira simpática
debaixo daquela folha ali
que sempre acena pra quem passa
e ao vento chama
“vem tu”

6 de ago de 2017

nos


aquela fera incógnita
de quem apenas eu fugia
em meio à doença de meus sonhos,
quem sou?

onde havia uma bússola,
enxergou relógio

em vez de rumar ao futuro,
acabou regressando ao sul

acontece


às vezes,
velhos viram poetas
seja por conta de amores extemporâneos,
seja por medo de divãs
--o que é quase a mesma coisa--

no seu caso,
já perdeu as contas
de quantas vezes envelheceu,
de quantos amores foi obrigado a trancar
     do lado de fora
e em quantos divãs se negou a deitar

acontece que
versos mesmo
nunca soube amar
nem deitar ao papel

4 de ago de 2017


riso miúdo
chega de finim
ria dos amantes
sonhava os infantes
ou só mangava de mim?

3 de ago de 2017

aluamento


corações abestalhados,
nunca se confessem à lua cheia
fofoqueira, ela é sempre a primeira
a espalhar aos quatro cantos
os segredos solares calados
por trás dos mundos
assim que ele
se põe

pia


o não-saber é asa que não voa...
se insiste batê-la, à piação depena
rasteja, rouca, não voa
que chega dá pena

1 de ago de 2017

quid pro quo


é sangue latinto
na taça vertida
pulsando verdades
em línguas pretéritas
do-in vino veritas
pressiona meus nós
roldão, quiprocó

31 de jul de 2017

deriva-me


encontrei-te continente esfarelado
teus pedaços te fazendo companhia
e pro mar nos rejuntar como em mosaico
ancorei na tua ilha mais tardia

lá de longe, teu farol não me percebe
aos seus pés, também já não me percebia
minhas febres, meus delírios voam baixo
alisando de teus mares cada estria

rumam ávidos e impávidos
talvez saibas: foi amor
mas piratas também fogem
desconhecerás quem sou

29 de jul de 2017

trinca


fiquei trancado por dentro
fiquei trincado por fora
sou porta semicerrada
sou o erro de ideias mortas

mas meu convite é aberto
o aperto é só na entrada
entranhas intimidadas
intimidades cobertas

(da série “ESPALHANDO POESIAS nos comentários alheios” - instagram @interludios.meus no poema de @saulo_pessato)

advinhas


vá palpitando errado
arriscando acertar em cheio
quem tropeça nas próprias pernas
faz o chute ser em si mesmo
é tiro no escuro
disparado contra o próprio pé
revelando o alvo
e acabando todo o desacerto

28 de jul de 2017

por dentro


estampada
nas contracapas
de todas as minhas diferentes máscaras
uma velha imagem em desuso
em baixo relevo
e de baixa relevância
quando se trata
de mim mesmo

(da série “ESPALHANDO POESIAS nos comentários alheios” - instagram @interludios.meus no poema de @lagrimaspoeticas)

26 de jul de 2017


sinceramente
sei não, caetano...
de longe, todo mundo é estranho
de perto é que a gente conhece o que é
e a estranheza se desfaz

25 de jul de 2017

praga persistente


foi por um rio que cheguei,
mesmo não tendo rio aqui.
foi dele que desafoguei
tudo que ainda não nasci

na inclemência do chão quente,
deitei-me inteira em cicatriz.
na terra estéril e repelente,
fugi de amar e ser feliz

foi por um fio que fiquei
o amor é praga persistente
cria raízes, força a lei
enxerga rio onde há nascente

23 de jul de 2017


no baile das ressacas,
o que as ondas bagunçam,
os ventos tratam de rearrumar

22 de jul de 2017

diluição


preferia overdose;
dela só restam fragmentos
diluídos no imenso do mar

suas águas agora são outras
--mas todo oceano no fim se conecta--

e se, lá, ela ainda se banha
ele, aqui, também adentra no mar
como que pra tomá-la

que nem homeopatia

21 de jul de 2017

dos caminhos


fingia pescar,
mas apenas caçava garrafas…
e, engarrafando seus sonhos,
lançava de volta as garrafas ao mar

{tudo convém:
os sonhos se guiam sozinhos
--não carecem de velas ou bússolas--
e o mar --favorável-- conhece os destinos}

os sonhos seguiam sozinhos
e conheciam os pés a atracar

20 de jul de 2017

inanição


traria-te à luz
e a lei te conheceria.
mas que te faria a lei?
que garantias de sobrevida terias?

nada cometeste,
foste acometido;
trazer-te à luz e tentar te alimentar
ou te matar de inanição?

19 de jul de 2017

vagas


sua ruína
foi crer-se desejado
pela dona daquele olhar risonho

bobagem

ser alcançado
por ondas e marés
quer dizer ser cobiçado pelo mar?

quem se apaixona é o ego;
o Ser, em si,
-- dizem --
é cego

sempre bebo socialmente.
se não consigo,
só comigo

16 de jul de 2017

além dos muros


ao respiro da sanfona
dança o peito, dança junto
faz mais som que o instrumento
cala o xote e cala o assunto

só não cala de seus olhos
quem está além dos muros
clara luz vista das frestas
gira o sol que solve escuros

seus silêncios só sabem pedir
que se acalmem os mudos suspiros
porque soube que morte e amor
igualmente extinguem respiros

14 de jul de 2017


cansou...
já não corre pra ser o primeiro.
se o prêmio o quiser,
chegue pelo correio

via-te láctea


lia-te os lábios
como quem lê
mensagens dos astros
indecifráveis pra mim

no cosmo da nuca
sem tons de cosmético,
na abóbada celeste
da pálida pele,
um leito de conjunções estelares
(salpicos quem sabe de chocolate)
eu via-te láctea

**

tão perto, pertinho
mas distante anos-luz
agora só olho
seus pingos de luz
que caem no chão

11 de jul de 2017

passa


não invento palavras.
colho, como e o caroço
devolvo à terra lavrada
como um caminho de ladrilhos
pra que veja
enquanto pisa.
e passa
mas olha
pro nada...

10 de jul de 2017


antes do desejado
acordou
com gosto ruim na boca
e uma imensa sede

era sabor de ontem;
e sede de qualquer amanhã

8 de jul de 2017

verdades de graça


gratidão
é a menina da moda,
só se fala nela;
mas na casa de dona graça,
ela é a mais moça.

a primeiro que veio
foi a senhorita gratuidade,
menina muito dada;
só depois da gratuidade
é que vem a gratidão.

e se a gratidão está,
é porque a gratuidade já esteve;
na casa de dona graça
tudo é graça
e tudo é de graça

subverteu
ao não desligar
--no horário estabelecido--
sua máquina
de fabricar sonhos

4 de jul de 2017

ponte aos poetas


toda alma é poeta:
é na forja da alma
que acontece a poesia

na primeira fornada,
a poesia acontece
na alma do escrevedor

poemas, rimas,
versos, imagens, métricas
tudo é ponte por onde
transcende da alma
a poesia

e assim alcança
--como emaranhado da quântica--
a forja da alma do leitor

onde nova fornada torna
a poesia acontecer:
toda alma é poeta

29 de jun de 2017

haicai viii


quem conhece as causas
de haver-nos cantos de invernos
feitos só de pausas?

ex-gotas


na brincadeira de andar pra frente
descolando os penduricalhos meus
até, de mim, só eu mesmo restar
lanço verdades pelo caminho

quase nada floresce
a maioria vira nuvem
outras teimam e voltam pra mim

e adiam a ideia de eu me esgotar
e se acumulam ao meu redor
como redemoinho de mosquito depois da chuva,
como ex-gotas de mim

26 de jun de 2017

bagaço meu


vem de dentro meu soluço
das funduras de meu poço
onde habita num cortiço
a porção do meu avesso:
eu em suma e meu palhaço

zelação


suspirava o homem-só
pelo amor daquela flor;
mendigava às alegres retinas
pelo olhar da mulher-girassol

descabida insensatez,
fez da flor seu capataz
e mentia não mais viver só
e nos sonhos fingiu-se homem-sol

14 de jun de 2017

11 de jun de 2017

24 de mai de 2017

nau


a esperança me atiçou
com um cais inalcançável,
um porto chamado Tempo

e me deu uns pés de vento
e um destino: navegar
meu barco chamado Now

6 de mai de 2017

a toca


não contente
em ser somente
aparente casca,
rompeu-se do restrito trilho
e se espalhou pipoca
bem maior que o próprio milho