9 de abr de 2007

teu olhar



me diz, sem pudor
no silêncio do olhar,
palavras que a boca
temeria falar

esse artifício eu já sei:
vontade de me comprar,
como se algo valesse
o teu olhar, teu olhar

como se quisesse roubar
minha firmeza de mim,
passando revista ao meu corpo,
citando-me em teu folhetim

quando meus olhos, porém,
resolvem te conferir,
dispara infantil e fugaz
o teu olhar, teu olhar

3 de abr de 2007

vindita bacana



nas vivendas do umbuzeiro miúdo,
onde a luz é repelida e ocultada,
uma bruxa, um cão e o súdito mudo
vestem branco pra mais nova empreitada

ela ensaia o mais recente projeto:
chicotar mais um dos alvos mortais
com sua vara envenenada em dejeto,
resultado de sua fome voraz

testa a língua laminada em seu servo
-- incapaz de reagir com um 'não' --
e prossegue planejando em qual nervo
vai mirar e disparar seu arpão

ia assim, dissimulada de bem,
solfejando uma divina canção
com a língua que servia também
de tridente emporcalhado do cão

só que, nessa, se deu mal a maldita,
porque a vítima era amada de Deus;
logo, teve que aceitar a vindita
de engolir seus tribunais fariseus

(a imagem é do mestre Osvaldo)